quarta-feira, 26 de outubro de 2011

OS PEBAS E OS CACHORROS: A MISTURA DE CULTURA, HUMOR E POLÍTICA EM ITAPAJÉ

Todo mundo sabe que período de campanha política no interior brasileiro é sempre sinônimo de alvoroço e agitação. As cidadezinhas do Nordeste são as mais animadas com o “furdunço”! Aqui no Riacho do Fogo ou, pra quem preferir, São Francisco de Uruburetama, ou ainda Itapagé com “gê” ou com “jota”, ou simplesmente aqui no nosso querido Itapas não é diferente! Nossa rica criatividade somada ao também nosso formidável senso de humor cearense fez com que nossa cidade visse ao longo de alguns anos campanhas políticas marcadas pela personificação, não somente por seus candidatos, mas especialmente por seus mascotes, suas figuras simbólicas. Assim surgiriam o peba e o cachorro.

Município de Itapajé, ano de 1976. Estava em pleno vapor mais um pleito eleitoral rumo à cátedra de Prefeito Municipal. Francisco Chaves Bastos, conhecido como Dr. Ary Bastos, lança-se à Prefeitura, tendo como vice na sua chapa o advogado Dr. Sebastião Neto, além dos apoios do então prefeito Luiz Saraiva e de outras bases, como setores da família Paraíba, com atividade política nos distritos de Pitombeiras e Tejuçuoca, de quem a senhora Mariá Forte da Silva, esposa do candidato a vice, descendia. Do outro lado, estava Vieira Neto, tendo como seu vice o Sr. José Estevão. Vieira era filho do já falecido deputado Raimundo Vieira Filho, político populista, no real sentido da palavra, e que também havia sido prefeito de Itapajé, grande manobrador político da sua geração. Aqueles dois grandes grupos políticos travavam histórica batalha nos seus palanques. Mas para se entender melhor esse momento é necessário voltar um pouco mais atrás.

Durante o seu mandato como prefeito de Itapajé, eleito em 1970, o Sr. Roque Silva Mota, que havia disputado campanha acirrada com seu primo José Moacir Mesquita e Silva, ambos da família Paraíba, veio a falecer em 1972, em um acidente automobilístico, faltando pouco mais de dois meses para o fim do mandato, já que sua gestão seria de apenas dois anos, para unificar as datas das eleições no país. Seu então vice-prefeito, Ary Bastos, realizou naqueles poucos meses que lhe restaram uma gestão que reestruturou a máquina administrativa do município. Como não havia a possibilidade de reeleição na época e respeitando um acordo anteriormente firmado entre as facções políticas municipais, foi lançado em 1972 o nome do Sr. Luiz Gonzaga Saraiva para o Paço Municipal, acompanhado da vice Zefinha de Matos Vieira, esposa do Dep. Raimundo Vieira Filho. Luiz Saraiva foi eleito (Dizem que não com facilidade, pois teria sido muito elevado o número de votos em branco. Isso demonstra, pelo menos historicamente, que a mentalidade e a formação política do itapajeense são, desde há muito tempo, influenciadas pela idéia de enfrentamento entre duas forças políticas principais, inibindo muitas vezes as perspectivas da unanimidade ou de outras vias e projetos). Pois bem: Luiz Saraiva fora eleito com um acórdão político, mas tal aliança só duraria um único mandato. Em 76, a “união” por Itapajé já tinha “voado as bandas pelos ares”. O prefeito Luiz Saraiva apoiava Dr. Ary enquanto a vice-prefeita, obviamente, apoiava o filho Vieirinha. Até aí tudo bem. Mas o que tudo isso tem haver com a história do “cachorro” e do “peba”? Uma simples idéia iria dar o tom da campanha daquele ano.

O Sr. Camilo Castelo Félix, conhecido como Seu Castelo, era um farmacêutico gabaritado na região de Itapajé e circunvizinhança. Homem de coração gentil, nunca deixou de amparar um pobre que vinha da serra e do sertão, muitas vezes numa rede, para receber seus cuidados, nem que fosse pelas altas horas da madrugada. Mas cuidar dos que sofriam pelas enfermidades não era a única atividade social que apaixonava o Seu Castelo. Ele também era um fervoroso amante da política local. Fora criado no núcleo familiar do Sr. Mundim Bastos, grande líder político da década de 50, que atuava nos bastidores e que havia ajudado a eleger o seu outro pupilo, Jauro Bastos, na década de 60. Castelo, com toda essa herança política, era uma das estrelas no palanque de Vieira Neto. A campanha de 76 foi se desenrolando como qualquer outra, até o sorteio das posições na chapa. Sabemos que até o fim dos anos 90 não existiam urnas eletrônicas; o voto era marcado em um papel chamado “chapa”, onde estavam impressos quadradinhos que antecediam os nomes de todos os candidatos registrados, que normalmente tinham sorteada a posição na chapa. Ary Bastos ficou com a posição de cima e quem quisesse votar em Vieira Neto teria que marcar o segundo quadrado, na parte de baixo. Em uma época de altíssimas taxas de analfabetismo no país, a campanha de Vieira temia perder a eleição pela possível “desvantagem” de ser o candidato de baixo, na chapa de cada eleitor. Porém, Castelo teria uma idéia que iria mudar a história das campanhas políticas locais, até aos dias de hoje.

O Sr. Castelo, vendo a possibilidade de um empecilho à eleição de Vieira, devido à posição desprivilegiada da candidatura do seu grupo na chapa eleitoral, resolveu inovar e iniciou um diálogo com os eleitores nos comícios, usando um enorme modelo de uma chapa, onde ele demonstrava e dizia:

- Vamos aprender a votar no Vieirinha:
- Onde o peba tá? Tá no buraco de cima?
- Não, senhor! (Respondia o público entusiasmado!)
- Tá no de baixo! (Respondia o Seu Castelo.)
Como toda moda simples e vinda das raízes populares, a história do “peba no buraco de baixo” pegou! Criaram-se mais modelos de chapas, músicas sobre o peba e o buraco, fazendo os eleitores de Vieirinha aprenderem aonde marcar no dia da eleição, no buraco de baixo, no buraco do peba! Mas... sempre existe um mas... a campanha do Dr. Ary não poderia ficar por baixo. Era necessário fazer algo para que a história do peba não avançasse mais. O quê ou quem poderia impedir, barrar ou caçar um peba, uma espécie de tatu cearense? Eles usariam então a figura do “cachorro”, que iria caçar esse peba! Junto com a figura do cachorro, seus correligionários usavam a sua anterior passagem pela prefeitura para carimbar a campanha com músicas que diziam: “três meses o Ary já governou e o povo quer ele porque é trabalhador”. E parece que deu certo. Apesar da criativa idéia do peba, a campanha de Vieirinha perderia aquela eleição. Ary Bastos entrava definitivamente para a história dos prefeitos itapajeenses, agora dentro do seu próprio mandato. Teriam os pebas sido extintos? A próxima campanha mostraria que não.

O ano agora é 1982. Está chegando ao fim o mandato de Ary Bastos, que havia se prolongado por mais dois anos, por ordem da Ditadura Militar. Sua gestão construiu bases para a atual Itapajé. O CSU, a estação de água “Escorado” e a pavimentação de área próximas ao Centro, como a Rua Fausto Pinheiro são algumas obras que datam dessa época. Pois bem, Ary Bastos agora faria o favor de retribuir ao seu correligionário Luiz Saraiva o apoio dado na campanha anterior. O Seu Luiz Saraiva, como era conhecido, lançar-se-ia candidato tendo como vice Robério Mota. Conta-se que Seu Luís queria ter o “prazer” de enfrentar outro candidato, já que quando eleito anteriormente fora candidato único. Mas quem seria o adversário? Aqui houve o primeiro momento em que Vieirinha, que estava em Fortaleza, ouviu o apelo dos seus correligionários: “Volta Vieira, volta pra tua gente...” Dentre esses simpatizantes, um funcionário da hoje extinta Teleceará, dono do bar Esquinão e muito popular entre os pebas, seria a peça fundamental na tentativa de levar o “pebaral” à prefeitura: o rapaz se chamava João Batista Braga. Com o apoio de vários segmentos políticos, dentre eles bases da família Paraíba e a família Pinheiro Bastos em Santa Cruz, além da força popular de Batista Braga na sede, Vieira Neto foi enfim eleito, tendo como vice o advogado Dimas Forte. Finalmente os pebas entravam na prefeitura. Vieirinha, assim como Dr. Ary, também governaria por seis anos.

Em 1988, ano da Constituinte, fora convocada uma nova eleição nos municípios brasileiros. Em Itapagé, ainda com “g”, havia insatisfação por parte de muitos munícipes, especialmente os correligionários do Seu Luiz Saraiva. Isso seria demonstrado no pleito eleitoral. Vieira Neto lançaria seu Secretário de Administração, Batista Braga, o homem forte dentro da prefeitura, que teria como vice o médico Cristovão Cruz, aparentemente indicado pelo seu irmão Tony Cruz, que marcou sua influência política na gestão de Vieirinha. O grupo adversário, na liderança de Luiz Saraiva, lançaria a primeira mulher candidata a prefeita no município, Maria Gorete Magalhães Caetano, tendo como vice o radialista Itamar Monteiro. Gorete bateria na tecla da mudança durante sua campanha, afirmando que iria limpar Itapagé, uma referência ao sistema de limpeza pública da gestão de Vieirinha. Os “cachorros” literalmente usavam vassouras nas passeatas e comícios apresentados por Idervaldo Rocha e, ao som “Ilariê ô, ô, ô, Gorete e Itamar ô, ô, ô”, versão da música Ilariê, da Xuxa, que estava no auge, conseguiam arrastar verdadeiras multidões por onde passavam. Já nos comícios dos “pebas”, Batista Braga introduziu o slogan “30 Anos na Praça”, além do comando vibrante de Salomé Bastos no microfone; e se entre os cachorros tinha o comício das vassouras, entre os pebas tinha o comício das panelas! Mesmo sendo o candidato de um grupo que há seis comandava a prefeitura e com a gestão de Vieirinha já desgastada, nos últimos dias de campanha, para a surpresa de muitos, Batista Braga conseguiu superar a suposta preferência majoritária pela candidatura mudancista de Dona Gorete e em 15 de Novembro de 1988 foi pela primeira vez eleito prefeito, sendo o segundo candidato que os pebas elegeriam.

Quatro anos passariam. A gestão Realizando a Vontade do Povo, do prefeito Batista Braga, estava chegando ao fim, em 1992. Vieira Neto e Batista Braga romperiam durante esse período suas relações políticas. Batista via como seu natural sucessor seu vice Cristovão Cruz, que seria lançado tendo como companheiro de chapa o agrônomo Fernando Mesquita Araújo. Vieira se uniria ao grupo de Luiz Saraiva, sendo lançado como cabeça de chapa e tendo como vice Gorete Caetano. Seria oficialmente a última campanha dos “pebas e cachorros”, já que os dois grupos já estavam bastante “misturados”, o que é natural na política. Vieira levaria para seus novos correligionários o título de “peba” e os apoiadores de Cristovão Cruz passariam a se denominar como o grupo dos “cachorros”. Pela segunda vez seguida, o grupo apoiado pelo Governo seria eleito. Após quatro eleições terminava a era peba-cachorro, com dois pleitos ganhos por cada um dos grupos.

A GESTÃO DOS GOVERNOS PEBA E CACHORRO
Se durante um significante período da história republicana do Brasil as eleições presidenciais formam marcadas pela cultura café com leite, onde mineiros e paulistas disputavam o comando do país, em Itapajé por durante quatro pleitos os grupos peba e cachorro assumiram o comando da cidade, duas vezes cada um. Quem procura conhecer um pouco desse período, ainda que não tenha nascido na época, irá concluir que existiam características particulares na forma de governo desses dois grupos, ainda que cada um dos quatro prefeitos tenha marcado seus mandatos de forma personificada. As gestões de Ary Bastos e Cristovão Cruz, os dois governos dos “cachorros”, foram marcadas principalmente pelo avanço em obras de infraestrutura; Vieira Neto e Batista Braga, os prefeitos dos “pebas”, marcaram profundamente suas passagens pela prefeitura com o assistencialismo e um cuidado mais humanitário. Isso de certa forma delimitou ideologicamente o partidarismo em nosso município, algo parecido com as convicções de Republicanos e Democratas nos Estados Unidos ou com a nossa rivalidade brasileira entre tucanos e petistas. Assim, quem queria na gestão municipal um “trator de obras” apoiava os cachorros e quem buscava na prefeitura um gestor que atendesse ao povo em suas necessidades básicas votava nos pebas.

Coincidência ou não, as quatro gestões compreendidas entre os anos de 1977 a 1996, vinte anos completos, foram marcadas por essas duas formas de administração. Isso não significa que cachorros não tenham investido no social ou que os pebas não construíram obras necessárias ao desenvolvimento, mas sim que ambos os grupos ficaram historicamente mais marcados por obras de engenharia, no caso dos cachorros, e pelo assistencialismo, no caso dos pebas. O mais interessante é que essas características ainda continuaram a existir nas gestões municipais que se seguiram. A rivalidade entre essas duas únicas formas de governar teima em persistir em Itapajé, tendo somente mudado as “espécies dos mascotes de campanhas”, dando ainda hoje pouco espaço para outras opções, porém, não sendo conveniente julgar aqui o mérito dessa questão.

Que sirva como modelo para Itapajé o que ocorre no nosso país desde 1994 com o Plano Real e a estabilização da economia, processo que se iniciou com Itamar Franco, passando pelo governo tucano de Fernando Henrique Cardoso e hoje pelo modelo petista. Fernando Henrique desenvolveu o projeto de infraestrutura Avança Brasil ao mesmo tempo em que implementou os benefícios sociais, como o Bolsa Escola. Lula aprofundou esses projetos através do PAC e do Bolsa Família. Assim, os avanços dos governos precisam ser contínuos e em todas as áreas, com investimentos simultâneos na infra-estrutura e no ser humano, sem nunca esquecermos a democracia e a liberdade de expressão. Uma visão social-democrata.

Que Deus nos abençoe!

Cesário C. N. Pinto

Itapajé - Ce, 16 de Outubro de 2011.

Com a colaboração de Colombo Gomes Pinto.

5 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom o texto! Gostei bastante de ler um pouco sobre a história política do nosso Itapajé! Entre essa disputa de "pebas" e "cachorros" eu só peguei a última eleição quando votamos em Dr. Cristovão para prefeito. No mais, gostei muito da parte final quando você defende a social-democracia!...rs

abraços Cesário!

ADRIANO RODRIGUES FONSECA.

maria da penha saraiva disse...

Prezado Conterraneo! Parabéns pelo trabalho. Ele certamente é muito importante para a documentação da história política de Itapagé e para a formação e expansão da consciência política de seus eleitores. Á luz dessa consciência eles poderão distinguir os candidatos mais comprometidos com os interesses da Cidade e do Município e assim de forma livre e através de homens dígnos e confiáveis, ampliar e melhorar a educação, saúde,infra estrutura do Município, sem esquecer jamais da defesa de nossos rios, arvores, animais e sobretudo da do Homem. Que assim, no nosso horizonte político não tenha mais "pebas e cachorros" a nos orientar. Que tenha um candidato comprovadamente comprometido com o desenvolvimento econômico,social, cultural e político do Município. Não vai aí nenhuma crítica pessoal ao Castelo- pessoa da mais alta dignidade e merecedora de nosso carinho e respeito- ele apenas foi inteligente e criativo. INFELIZMENTE NOSSO POVO É QUE ESTAVA DESPREPARADO POR FALTA DE OPORTUNIDADES. Finalmente, você nos chama atenção para a necessidade de darmos continuidade aos programas com base em prioridades e não em paixões cegas e inconseqüentes. Um abraço e satisfação por tê-lo como conterrâneo.

LILIANE NASCIMENTO disse...

muito bom mesmo!!!
mas que tal postar um outro texto ,agora comentando sobre gatos e cavalos!!! com todo respeito é claro

Anônimo disse...

Muito bom!!

glaucia Pontes disse...

Parabéns Cesinha, belo texto, nos faz fazer uma viagem no tempo, eu adorava os comícios da Gorete, acho que pela música da xuxa, hoje vejo a política com outros olhos, mas os fatos narrados nos faz voltar a infância , eu lembro bem dessa história de peba e cachorro, Itapajé tem dessas coisa.