quarta-feira, 25 de abril de 2012

QUINTINO CUNHA: O PAI DO HUMOR CEARENSE


Vem crescendo nos últimos anos e a passos largos o número de pesquisadores que tem dedicado suas reflexões sobre o legado do cearense Quintino Cunha. Prova disso é o número cada vez maior de publicações e sites que analisam a biografia desse brilhante advogado nascido em São Francisco de Uruburetama, atual Itapajé, e que é tido atualmente por especialistas e historiadores como o precursor da irreverência bem humorada do cearense. Hoje, a maioria do povo cearense, inclusive seus conterrâneos itapajeenses, de forma injusta, não conhecem a vida de Quitino Cunha e nem tampouco nunca reconheceram o mérito da sua obra, mesmo ele tendo sido considerado por figuras importantes da sua época como “o maior humorista brasileiro de todos os tempos”. Apesar do descaso, a cada dia jornais, sites e blogs vêm divulgando sua biografia, seus poemas e suas tiradas bem humoradas, para que sua obra não caia no esquecimento. Segue abaixo uma compilação do que vem sendo escrito sobre a vida e obra de Quitino Cunha.

José Quintino da Cunha, o Quintino Cunha (1875/1943), se tornou uma figura lendária no Ceará. Não há quem não tenha ouvido falar nesse notável poeta e advogado. Na verdade, menos pelas suas belas poesias do que pela fama de repentista emérito. No entanto, Quintino foi um dos vultos mais importantes da literatura cearense, além de poeta era contista, orador e advogado. José Quintino da Cunha (uns chamam de Quintino Cunha, outros Quitino Cunha, sem o "n") nasceu em 24 de fevereiro de 1875, em São Francisco de Uruburetama, hoje município de Itapajé. Quintino Cunha, advogado e poeta - O "Bocage" cearense - ficou famoso pelas suas "tiradas", sua alegria contagiante e sua sensibilidade. Assíduo frequentador das rodas de bate-papo na Praça do Ferreira, no Passeio Público, nos antigos cafés Java, Art nouveau, Glória e Riche, declamava versos e discutia sobre arte, literatura e política. Seu talento jornalístico aflorou cedo. Já aos 11 anos, estreou na imprensa, redigindo "O Álbum" e colaborando no jornal "O Cruzeiro", ambos de Baturité. Aos 16 anos, escreveu "O Cabeleira", homônimo de Franklin Távora, ressaltando o lado humano do temido personagem Cabeleira. Estudou no Ginásio Cearense, então dirigido pelo Professor Anacleto Cavalcanti e na Escola Militar. Depois de alguns anos atuando como rábula, cursou a Faculdade Livre de Direito do Ceará (Bacharelou-se em 1909, onde começou a exercer a profissão de advogado criminalista). Aceitava os casos mais difíceis de defesa e mesmo assim, conseguia sucesso. Foi Deputado Estadual entre 1913 e 1914, ocasião em que defendia fervorosamente a melhoria da instrução do povo e onde lutou contra a extinção da Faculdade de Direito, então cogitada na Assembléia. Residia na Av. Visconde do Rio Branco, 3312 quando faleceu, na madrugada de 1º de junho de 1943. Quem visitar o cemitério São João Batista, em Fortaleza, terá a oportunidade de ler esta inscrição em sua lápide: “O PAI ETERNO, / SEGUNDO A HISTÓRIA SAGRADA / TIROU O MUNDO DO NADA, / E EU NADA TIREI DO MUNDO”.
Quintino ficou bastante conhecido por seu estilo irreverente e carismático, também lembrado pelas anedotas que contava. Tornou-se uma figura lendária no Ceará. Não há quem não tenha ouvido falar nesse notável poeta. Seu pai, João Quintino da Cunha, era professor e jornalista e sua mãe, D. Maria Maximina Ferreira Gomes da Cunha, era professora e solista da igreja. Quintino quase seguia a carreira militar, chegou a se matricular na Escola Militar do Ceará, mas logo abandonou a idéia e a escola. Sempre inquieto, resolveu deixar o Ceará e foi parar na Amazônia. Lá, como provisionado, advogou durante cinco anos. Depois foi para a Europa, onde publicou o seu primeiro livro, Pelo Solimões. Conviveu e fez amizade com diversos escritores estrangeiros. Logo, porém, voltou ao Ceará e matriculou-se na Faculdade de Direito. Concluiu o curso em 1909. Advogou no foro criminal, tornando-se célebre pela sua incomparável oratória. Tal qualidade era muito requisitada em comícios e festividades. No entanto, Quintino se tornou realmente famoso pelas suas tiradas de espírito, repentes que faziam o deleite dos amigos. Viveu sempre em dificuldades financeiras, não só pelo fato da sua família ser numerosa como pelos seus sucessivos casamentos e os conseqüentes encargos familiares. Apesar disso, chegou a ser deputado estadual (1913/1914) e pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, com sessenta e oito anos, no dia primeiro de junho de 1943. Daria seu nome, posteriormente, a um bairro em crescimento na cidade de Fortaleza e a uma rua em sua terra natal, Itapajé. Homenagens essas ínfimas diante da importância literária, social e cultural do poeta.
Casa de Quintino Cunha, em Itapajé.
José Quintino Cunha é o mais lendário de nossos humoristas literários, o maior de nossos poetas cults. Excêntrico sem ser snob, feio, mas cativante, eternamente esquecido, sempre resgatado, Quitino Cunha figura ao lado dos grandes mestres do improviso literário ferino, como Bernard Shaw, Quevedo e Swift, sendo considerado pelo crítico Agripino Grieco "o maior humorista brasileiro de todos os tempos”. Homem do povo, orador nato, "virgem de funções públicas” como se considerava, culto e boêmio, sertanejo e globetrotter, Quitino representa com perfeição o melhor da inteligência cearense. Personagem da Fortaleza risonha da Praça do Ferreira dos anos 20 e 30, dos lendários cafés Art Nouveau, Riche, Glória e do Comércio, foi jornalista idealista, germanófilo anti-Hitler, esquerdista não-soviético, utópico brilhante e, sobretudo livre pensador, amante dos livros e das coisas simples do Ceará. Contemporâneo de Leonardo Mota, Gustavo Barroso, Ramos Cotoco, Gil Amora, Renato Sóldon, Guimarães Passos, Emílio de Menezes, Paula Nei e tantos outros hoje também quase esquecidos, foi homenageado por Euclides da Cunha, Guerra Junqueiro, Rostand e Émile Faguet, "o monstro da Academia Francesa”, de quem foi íntimo em Paris. Rachel de Queiroz o considerava "um patrimônio da terra” e é dele o hoje clássico verso-constatação de que "o cearense é como o passarinho: tem que voar para fazer o ninho” verdade terrível e que nos remete não só a uma inclinação existencial, mas à dura realidade de um Ceará que, malgrado os progressos, teima em existir. É dele o axioma: "No Ceará, o sujeito nasce na Fé, cresce na Esperança e morre na Caridade”.
Longe das tristezas, contudo, era Quintino - e por isso tornou-se famoso, o mestre inconteste da boutade, da ironia cáustica, irreverente, corajosa, do melhor humorismo artístico e existencial. Suas tiradas, famosas, são sempre lembradas com simpatia, pois além da arte encerram uma filosofia de vida libertária e ética. Gênio do improviso, poeta de fôlego, nos deixou, entre outros, Pelo Solimões, livro notável por seu nacionalismo e pioneirismo no uso dos temas regionais, e belo exemplo da épica presença cearense na Amazônia. Chamado por Euclides da Cunha de "poeta de verdade” louco lúcido entre loucos comportados, Quintino certamente vai crescer ainda muito em importância e originalidade, na medida em que os cearenses forem percebendo o quanto aqui a Literatura, ainda que desamparada e pouco lida, é viva e vital, e como em nenhum outro lugar do país.
Quintino Cunha e Alba Valdez,
naturais de São Francisco de Uruburetama (Itapajé),
membros da Academia Cearense de Letras. Ano de 1922.
ODISSÉIAS FORENSES
Quintino Cunha se tornou um advogado muito requisitado, passando inclusive a ser considerado um mito da advocacia daquela época. Dono de muitos causos que lhe renderam fama. Tal comportamento fez com que vários autores descrevessem suas odisséias forenses em obras. Um famoso causo do doutor Quintino é o da mãezinha do acusado: Quintino entra no Tribunal do Júri, e na primeira oportunidade de defesa exclama: “Não olhem para o crime deste infeliz. Olhem para a mãezinha, velhinha, doente, e que neste momento encontra-se genuflexa perante a justiça, implorando misericórdia aos homens para com seu filho. Esta senhora está se desmanchando em lágrimas, deitada arquejante em sua rede, esperando que seu filho adentre o quarto para lhe abraçar absolvido”. O resultado não foi outro senão a absolvição unânime do réu.
No final da sessão, um dos presentes se aproximou e disse: - Doutor Quintino, quero fazer uma visita a esta mãe, quero doar minha ajuda. Diga-me onde eles moram.
Quintino Cunha então respondeu: - Ora! Eu sei lá onde mora esse imprestável, nem sei ao menos se este infeliz algum dia teve mãe!
Em outra causa difícil, sem saber como se contrapor ao ex-adverso que citava de cabeça os maiores juristas nacionais e estrangeiros, impressionando o júri e o juiz, ele começa a argumentar baseado nas teorias do nobre jurista Alberto Nepomuceno. E era Nepomuceno para cá, Nepomuceno para lá, citações belíssimas, profundas, tudo em prol de seu cliente. Ao final do julgamento, causa ganha, o ex-adverso vem e pergunta: – Dr Quintino, eu já estudei muito Direito, dou o braço a torcer, o senhor venceu. Mas apenas para satisfazer a minha curiosidade, quem é o jurista Alberto Nepomuceno? E Quintino, com aquele jeito gozador dele diz: – Eu também não conhecia, acabei de criar!
IRREVERÊNCIA DE QUINTINO
Consta que naquele primeiro quarto de século em Fortaleza existiam dois jornais de grande circulação. Quintino escrevia em um e outro jornalista, que se tornou seu desafeto por defender opiniões contrárias, escrevia noutro. Certa feita Quintino faz aniversário e os amigos providenciam uma festa surpresa para ele. Logo depois dos parabéns quem entra na sala? Exatamente seu desafeto. E trazendo-lhe um presente nas mãos. Um grande pacote, com um papel bonito e um laço. Entregou ao Quintino que ficou desconfiado. Para não fazer feio junto aos presentes, resolveu abrir o presente. Ao rasgar o papel, a surpresa: um par de chifres! E aquele ôooooo geral. Todos esperavam a reação de Quintino. Ele não diz nada e simplesmente guarda o ‘presente’. Nos dias-meses subsequentes nem uma linha de Quintino sobre o episódio. Meses depois eis que acontece o aniversário do jornalista que deu o ‘presente’. E todos ficam esperando que o Quintino vá aprontar alguma. No dia, grande festa na sociedade fortalezense, a nata da sociedade é convidada, por óbvio Quintino não. Ao final da festa quem aparece na casa do aniversariante? Quintino com um presente de mesmo tamanho (e mesmo laço). Todos ficam apavorados. O que seria? Vai ter briga! Ele calmamente entrega o presente ao jornalista aniversariante que, com certo receio, vai abrindo o pacote. Tira o laço, rasga o lindo papel. E, para surpresa sua e de todos que ansiosamente esperam, encontra um lindo buquê de rosas! Ninguém entende nada, muito menos o aniversariante que esperava algo no mínimo igual ao que havia dado antes. E Quintino, na calma que lhe era peculiar, responde a todos: - Só se pode dar aquilo que se tem!
De todos os humoristas do Ceará, o mais engraçado talvez seja Quintino Cunha. Contam que, quando sua casa foi invadida por alguns ladrões que, em seguida, foram presos, como ninguém queria defender os larápios, no Tribunal, ele se apresentou para ser o advogado da quadrilha! Já precisando viajar de uma cidade para outra, no interior do Ceará, e não tendo um cavalo para se locomover, mandou pedir um a um determinado coronel. O cavalo chegou. Mas era tão magro que Quintino, vendo aquilo, mandou o seguinte bilhete para o dono do cavalo: “Coronel, recebi os ossos. Pode mandar a carne agora”! Conversando com um homem que tinha o bigode grosso e torcido para baixo da boca, Quintino percebeu que quando aquele homem dizia uma frase citava, logo em seguida, o autor dela. Irritado com isso, o humorista cearense que, ainda por cima, estava pagando a conta, perguntou ao outro, a certa altura, se ele tinha aquele bigode assim, feito aspas, porque tudo o que saía e entrava nela era dos outros.
O homem, certamente, ficou calado depois desta.
Quintino certa vez fazia uma viagem de trem para Cariús(CE), mas no caminho havia uma parada em Iguatu(CE). Era o dia da inauguração do novo prédio do Fórum. Alguns colegas, ao encontrarem Quintino na estação, convidaram-no para participar da solenidade.
Mal-humorado, Quintino perguntou:
– Quem é o juiz?
– É o Doutor Fulano.
– O promotor?
– Sicrano.
– E o advogado?
– Beltrano.
Desdenhoso, o matreiro advogado torceu o nariz e resmungou:
– Pois isso não é um Foro! É um desaforo!
Conta-se que, numa audiência em Fortaleza, um professor de hipnose era acusado de furto.
A certa altura, disse este, em sua defesa:
– Se eu quisesse fugir, poderia fazer todos aqui dormirem!
O advogado Quintino Cunha, que acompanhava a audiência, interveio:
– Não é preciso, deixe isso a cargo de seu advogado!
Noutra feita, corria uma audiência quando o causídico adversário disse:
– Doutor Quintino, eu estou montado na lei!
– Pois saiba que é muito perigoso montar num animal que não conhece bem!
Notícia de época, datada da primeira metade do século passado, sobre o folclórico advogado cearense Quintino Cunha:
“Com a presença de 23 jurados, realizou-se uma segunda reunião da presente sessão do júri. Compareceram à barra do Tribunal os réus José Boa Ventura e José Correia Lima, acusados de roubo na casa de residência do Dr. Quintino Cunha, que os defendeu. Ambos foram absolvidos por unanimidade de votos...”
Esse era o jeito brincalhão do nosso conterrâneo poeta-advogado Quintino Cunha...
Fontes:
- Leila Nobre (Blog Fortaleza Nobre) e Oscar Araripe:
- Blog Conversa Piaba:
- Roberto Victor Ribeiro (Academia Brasileira de Direito):
- Blog José Rosa Filho:
- Jornal O Estado:
- Livro “Anedotas do Quintino”, de Plautus Cunha.

5 comentários:

lucas disse...

moro em sao paulo, mas sou cearense. sempre contei as historia de QUINTINO CUNHA pois conheço as sua historias desde quando fazia o ginasio, no COLEGIO SAO JOSE EM FORTALEZA em 1961. semprepasso por aki para me atualizar. adoroas suas historias

Quintino disse...

meu nome é Quintino silva e tenho bom
humor, e mim chama de Quintino cunha.
eu fico feliz: eu sor do ceara de Fortaleza capital.

Rubia Cunha disse...

Esse era meu bisavô, Quintino Cunha!

oportunidade disse...

Realmente este grade poeta, não está sendo lembrado e nem reverenciado como merece, nossa secretária estadual da cultura e a municipal de Itapagé me paressem omissas, mas ainda há tempo.

Jorge Braga disse...

Quintino certa vez chegando em uma praça viu três homens sentados em um banco, e o banco partiu-se ao meio, automatico teceu o seguinte comentario. _ Esse foi o unico banco que vi quabra por excesso de fundos.